AVENTURAS NA NUBILANDIA (5)


Joel e Vera já não conseguem voar


Quando Joel e Vera chegaram à outra margem do rio que percorria a Floresta-dos-mistérios, as asas que a Fada-rainha lhes oferecera já estavam muito reduzidas, e totalmente imóveis. Consegues imaginar a aflição dos dois amiguinhos?… A única coisa que ainda os confortava, um pouco, era a esperança que cada um deles depositava na semente que tinha recebido da árvore que falava português…

Estendendo um dos seus ramos na direção das crianças, dissera-lhes ela, à despedida, junto da ponte:

– Podem colher duas das minhas sementes coloridas. Assim, quando os Giraldos vierem para as recolher, verificarão que faltam duas, e irão ter convosco… Escolham as que mais gostarem, mas guardem-nas bem, fechadas na mão com que as colherem! – adverte a árvore, despedindo-se das crianças.

Os meninos assim fizeram. O Joel foi o primeiro a colher a sua semente: escolheu uma de cor índigo, e fechou-a muito bem, na mão direita. Vera, por sua vez, preferiu uma semente cor-de-rosa, num tom muito claro e suave, que colheu com a sua mão esquerda…


Agora, porém, encontravam-se já na outra margem do rio. A travessia da ponte tinha sido morosa, e nenhum Giraldo tinha vindo ter com eles… Ainda não seria tempo de recolherem as sementes?!…

As crianças aproximaram-se de uma das árvores que habitavam aquela margem do rio que percorria a Floresta-dos-mistérios, e o Joel perguntou-lhe:

 – Podes indicar-nos o caminho até à Pirâmide de Simion?

A árvore não respondeu. Não entenderia o português?!… Joel dirigiu-se então à próxima árvore, e a outra, e mais outra… mas nenhuma delas reagia… parecia que se encontravam todas hipnotizadas, de tão alheias que estavam ao que se passava em seu redor.

A certa altura, porém, Vera repara que nenhuma daquelas árvores ainda tinha sementes:

– Estão todas sem sementes! – exclama. – Os Giraldos já as devem ter recolhido! E agora, será que ainda virão ter connosco?

– Mas, repara, naquele ramo mais alto ainda há uma semente amarela!…

E, enquanto Joel afirma isto, surgem mais duas sementes na árvore…

– Não!… Não são das antigas, são sementes novas! As raízes das árvores estão de novo ativas, a receber as ondas eletromagnéticas que as pessoas na Terra emitem. Deve ser por isso que não nos ouvem. Estão muito concentradas nas suas tarefas…

Joel concordou. E as duas crianças decidiram continuar caminho, dirigindo-se para o interior da Floresta-dos-mistérios.


Passado algum tempo, avistaram uma fonte, da qual jorrava água muito fresca. Apressaram-se na sua direção, porque ambos tinham sede.

Chegados à fonte, depararam-se com uma ave de plumagem azul e cabeça toda preta. Era uma gralha-azul, que logo os interpelou:

– Por que razão são tão pequenas as vossas asas? Assim não conseguem voar…

– Nós já sabemos que não conseguimos voar, não precisas de nos dizer isso! – respondeu-lhe o Joel maldisposto, por não ter gostado do comentário inoportuno. “Mas que ave mais atrevida!”, pensou ele com os seus botões.

Vera, porém, observou a ave e pensou que talvez ela os pudesse ajudar a encontrar o caminho para a Pirâmide de Simion.

– Tu conheces bem esta Floresta? – perguntou-lhe.

– É obvio que conheço! Pois se há já quase mil anos que eu aqui vivo!…

– Podes indicar-nos, então, o caminho até à Pirâmide de Simion?

– Depende… o que têm vocês para me dar em troca dessa informação?

Apanhada de surpresa, com esta exigência da gralha-azul, Vera ficou muda, sem saber o que dizer. Foi Joel quem respondeu, questionando:

– E o que queres tu?

– Bem, como as vossas asas já não vos permitem voar… podem dar-mas! Talvez eu ainda encontre alguma utilidade para as penas…

– E para que precisas tu das penas das nossas asas?!… Tu já tens muitas a revestir o teu corpo todo. Além disso, as nossas são todas brancas, não condizem com as tuas, que são azuis e pretas!…

– Sim, sim… – argumenta a gralha-azul –, mas eu talvez as possa usar doutra forma… Talvez mais tarde… talvez quando o ninho que ando a construir já estiver pronto… talvez possa usá-las para o tornar mais confortável…

Joel não gostou que a ave de plumagem azul e cabeça toda preta empregasse tantas vezes a palavra ‘talvez’… “Se ela ainda não sabe, ao certo, que utilidade lhe poderão ter as penas das minhas asas, porque é que quer à força tê-las?”, interrogava-se ele, desconfiado.


Vera seguia o diálogo dos dois com atenção, e também começou a antipatizar com a gralha-azul. Sobretudo, não lhe agradava a ideia de ficar sem asas… É certo que estavam muito pequenas, e não lhe permitiam voar, mas eram suas, e ela não estava disposta a oferecê-las a ninguém, ainda menos a uma ave tão antipática! Além do mais, ainda depositava esperança na semente cor-de-rosa-claro que a simpática árvore que falava português a tinha deixado colher de um dos seus ramos: “Os Giraldos ainda hão de vir buscá-la!”, pensava, confiante, fechando-a bem na sua mão esquerda… E, fazendo isto, sentiu como a semente começou, repentinamente, a aquecer dentro da sua mão. Foi uma sensação muito agradável, e Vera lembrou-se, de um momento para outro, que tinha sede, mas ainda não tinham bebido da água muito fresca que jorrava da fonte. Sugeriu então a Joel:

– Bebamos primeiro da água da fonte, depois decidimos o que fazer! Temos tempo.

Joel não podia estar mais de acordo. A conversa com a gralha-azul tinha-o incomodado, e ele não sabia se seria possível confiar nela… Por isso, inclinou-se sobre a fonte e bebeu, calmante. Vera também bebeu, e ambos se sentiram felizes e refrescados. E foi então que decidiram em conjunto que seria melhor continuarem o caminho na direção do interior da floresta, prescindindo da ajuda da gralha-azul. Quiseram dizer-lhe isso mesmo, mas, olhando em seu redor, já não a viram… Porque teria desaparecido?…



D. Momo King

momo@momolandia.com

Eu sou o célebre D. Momo King, um esquilo-voador-anão. Nasci no Bosque dos Momongas. Contudo, por ter sido sempre um rebelde, voei por cima da alta muralha que cerca todo o bosque e fui viver, ainda muito jovem, para uma floresta vizinha: a Floresta Encantada. Lá, fui iniciado nos mistérios de uma ordem secreta pelo Mestre Porfírio, um anão muito especial. Mais tarde, autoproclamei-me rei da Momolândia, um reino que fundei na Floresta Encantada. Sou alquimista, artista iluminado e o autor deste blog, que vou construindo, com muito carinho, para ti.

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